O conceito de liderança muda constantemente. Entretanto, as mudanças que ocorrem na teoria não são refletidas imediatamente na prática das empresas, onde as mudanças são bem mais lentas. É como se houvesse dois mundos distintos: o mundo ideal, aquele estudado na academia e o mundo real, aquele que se vive nas empresas.

Um conceito bastante utilizado para liderança é o do clássico O Monge e o Executivo do autor James C. Hunter. Ele define liderança como a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir objetivos comuns”.

Ao longo de minha carreira eu já tive chefe que era líder e também outros tantos que se intitulavam líderes, mas não passavam de chefes fantasiados de líderes. Eu mesma já fui chefe e só aos poucos fui me tornando líder, pois um cargo não faz um líder. Muito mais que uma posição, a liderança é uma responsabilidade e, acima de tudo, um reconhecimento.

A referência

Iniciei minha vida profissional em 1990 quando o termo liderança era pouquíssimo difundido aqui no Brasil. Assim, quando eu fui promovida por ser ótima técnica, assumindo aos 21 anos meu primeiro cargo de gestão, eu era apenas uma chefe. Já meu gestor que era chamado de chefe, era, na verdade, um líder e dos melhores! Embora ele desconhecesse o conceito de liderança.

Ele era um homem com mais de 55 anos. Sábio, dinâmico, carismático e empático. Diariamente perguntava sobre mim e demonstrava interesse sobre minha família, minha visão de mundo, meus sonhos e projetos futuros. Se eu espirrasse ou tossisse, ele me aconselhava a ir ao médico. Defendia os exames preventivos. Ele me incentivava a estudar, a ler, elogiava meu trabalho, fazia orientações, mas ao mesmo tempo solicitava e fazia questão de ouvir minhas sugestões de melhoria também.

Nas datas comemorativas, cumprimentava a todos desejando “saúde, amor e dinheiro” e frisava: Sempre nesta ordem! Ele falava sobre sua família, suas conquistas e também sobre seus problemas e dificuldades. Contava sobre seus projetos e de suas viagens (ah, eu adorava!). Ele via o brilho em meus olhos quando contava das viagens (na época meu salário era destinado para pagar a faculdade, sobrando apenas trocados). Incentivador, ele sempre dizia: “Não tenha pressa! Tenho certeza, que tu farás muitas viagens. Quando isto acontecer, me conte”. E assim aconteceu... durante anos eu viajava e lhe escrevia, contando a respeito.

Provando que as pessoas esquecerem o que dizemos, mas jamais esquecem como as fazemos sentir, passados quase 30 anos este cara ainda é a referência de líder para mim.

De chefe a líder

Eu não lembro exatamente quando conheci o conceito de liderança, mas lembro precisamente quando fui apresentada à prática. Em 2005 assumi a área financeira em uma Instituição que trabalhava com o modelo de consultoria interna de recursos humanos (atualmente business partner). Aí me deparei como a necessidade de gerir minha equipe, pois o modelo pressupõe que todo o gestor seja também um gestor de pessoas. Não foi fácil. Recebi um feedback negativo. Me vesti de resiliência e fui estudar. Fiz um MBA Gestão de Pessoas e uma infinidade de cursos sobre Pessoas. Seguramente, foi o período que mais desenvolvi minhas soft skills. Entrei chefe e sai líder, devidamente reconhecida pela equipe.

Depois que me tornei verdadeiramente líder, entendi que as pessoas representam a chave do sucesso dos negócios e nunca mais deixei de estudar o tema. Como diz sabiamente Michael Jordan: “O talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos”!  

Desmistificando o líder herói

A história demonstra que são nos momentos de crise que a humanidade avança. Desta maneira, este momento difícil de pandemia que nos impôs o home office, deflagrou que a figura do líder herói não é a mais eficiente como a maioria das empresas pensavam. O home office, demonstrou, entre outras coisas, que a maior parte dos colaboradores não precisam de controle de ponto, ordens e vigilância constante para serem produtivos.

Esta constatação acelerou em muito o processo naturalmente lento da evolução da liderança nas empresas. Assim, teoria e prática estão se aproximando com maior velocidade e intensidade e, cada vez mais, a figura do líder herói vem perdendo espaço nas organizações.

Um líder herói é aquele que sabe de tudo, está sempre certo, nunca erra, tem sempre a palavra, não pede opiniões, é responsável por tudo e nada pode acontecer sem que ele saiba ou aprove. Quando tudo dá certo, o mérito é dele. Já, quando algo dá errado, a culpa é da equipe! Vive buscando culpados para tudo e adora apontar erros.

Ele ama pôr a mão na massa e por isto não tem tempo para pensar estrategicamente ou inovar. Aí faz as coisas do mesmo jeito de sempre, defendendo: “Isto sempre foi assim e sempre deu certo”. Ele é uma máquina! Nunca descansa, não tira férias e se orgulha por isto! Quando se ausenta por horas ou alguns dias, liga diversas vezes, verificando se todos estão trabalhando conforme suas orientações.

Gerir pessoas, feedback, feedfordward, diversidade, inclusão? Para ele, tudo isto é mimimi! Além disto, ele se irrita com pessoas que pensam diferente dele e não mantem a mesma relação com o trabalho que ele.

Esta descrição parece piada, mas em pleno o século 21 no ano de 2021 ainda há nas empresas, muitos líderes heróis ou melhor, chefes fantasiados de líderes, que independentemente da idade, cor ou gênero tem as atitudes descritas. Muitos deles, não fazem por mal. Apenas o fazem, porque aprenderam assim, tem medo da mudança e geralmente não buscam por atualização. De outro lado, há muitos que se atualizam. Estudam, conhecem todas as teorias, mas na hora da execução falham por não querer demonstrar vulnerabilidade, que nada mais é do que HUMANIDADE.

Assim como na família se educa pelo exemplo, na liderança acontece o mesmo... Eu demorei a me tornar verdadeiramente uma líder, mas quando finalmente me tornei, o exemplo e a referência de um grande líder, já estavam presentes em mim.

Dirlene Silva é adepta da filosofia africana UBUNTU, o qual a essência é a solidariedade e respeito para com os outros. UBUNTU significa - eu sou, porque nós somos! Assim, ela se apresenta como a mãe da Joana, a filha da Vera e irmã da Marcia e da Marta.

Em 2020 foi eleita Linkedin Top Voices, sendo a única economista da lista. É empreendedora,  fundadora e CEO na DS Estratégias & Inteligência Financeira.  Também é embaixadora do Clube Mulheres de Negócios de Portugal, membro do coletivo Conexão Mulheres & Economia, colunista de Finanças nos blogs Prateleira de Mulher e Black Collab e palestrante exclusiva Enfoque Palestrantes.

Atuou por mais de mais 25 anos como líder nas áreas de Finanças e Gestão Estratégica em Empresas. Desenvolveu inúmeros projetos e por três anos consecutivos (2017, 2018 e 2019) conquistou o prêmio de GPTW/RS – Melhores Empresas para se trabalhar no RS.

Impulsionada pelos incômodos de que economia e finanças são assuntos da elite e as falhas na execução das estratégias no mundo corporativo, em 2020 ela decidiu que era hora de alçar voo solo e impactar positivamente a vida de empresas e pessoas e assim, realizou seu sonho de empreender, fundando a DS Estratégias & Inteligência Financeira que tem o propósito de "Desmistificar Economia e finanças” para empresas e pessoas.

Conquer Summit de Liderança - #NãoSejaUmLíderHerói

Aqui na Conquer nós também queremos incentivar lideranças engajadoras, colaborativas e eficientes. Para lançar o movimento #NãoSejaUmLíderHerói, convidamos líderes de peso do mercado para o Conquer Summit de Liderança, um evento 100% gratuito e online que vai transformar a sua visão sobre a construção de times de alta performance.

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