Enfrentei muitos desafios na vida e na profissão. Conquistar uma posição de liderança foi um deles. O ambiente corporativo é desafiador e competitivo por si só. 

Ser mulher na liderança representa passar pelo dobro dos desafios inerentes à posição, pois embora as mulheres representem 57% dos estudantes do ensino superior e maioria absoluta, 64% nos cursos de pós-graduação, ainda enfrentamos preconceitos no ambiente corporativo. No meu caso, ao fato de ser mulher somam-se outros desafios que elevam o preconceito já existente. Sou mulher, negra, de origem humilde e atuo na área financeira

Vale lembrar que, se em 2022, apesar de todas as conquistas, as mulheres ainda buscam espaços e lutam por equidade no ambiente corporativo, representando apenas 13% das vagas de alta liderança, imagine como era esta realidade há 30 anos quando iniciei minha trajetória profissional como menor aprendiz em uma multinacional. 

O começo da minha trajetória

Na ocasião, eu tinha 16 anos e meu sonho já era ser economista. Ao ver os executivos com seus ternos alinhados e pastas, decidi, que além de economista seria uma economista executiva de empresas. Somente muitos anos depois, me dei conta que me inspirei em homens e não em mulheres quando decidi ser executiva.

Tornar meu sonho realidade não foi tarefa fácil. Racismo e injúria racial não eram crimes. Tampouco existiam políticas afirmativas. Na universidade, ouvi do vice-reitor que aquele ambiente não era para mim. No trabalho, já fui chamada de macaca, negra cabeluda (tinha o cabelo alisado e comprido), negra de alma branca, dentre outros adjetivos. Em um processo seletivo, uma pessoa com ironia se referiu a mim como Xuxa. 

Em outro momento, após passar por todas as etapas do processo seletivo recebi a aprovação da empresa, sendo que ficaram de contatar informando a data do exame admissional. Passadas duas semanas sem contato, procurei a consultoria que havia me encaminhado a vaga e, constrangida, a recrutadora disse: “Desculpe, o mal jeito, mas preciso te dizer que a empresa voltou atrás quando soube de tua cor. A política da empresa é não contratar negros. Não contratam nem para a fábrica. Imagine então para o escritório”.

Em outra empresa, onde fui selecionada e trabalhei por muitos anos, posteriormente minha gestora (uma das mulheres líderes que me inspirou) confidenciou a mim que antes de minha contratação, o recrutador havia chamado ela e diretora administrativa para dizer que havia encontrado candidata ideal para a vaga, mas que ela tinha um problema: era negra. Ambas não se importaram com o “problema” e assim ingressei na empresa.

De chefe a líder

Minha estratégia para “furar a bolha” era me destacar. Buscava superar as expectativas, entregando sempre além do esperado para ter a apreciação dos gestores para assim adquirir credibilidade e o almejado destaque na carreira

Já era perfeccionista ao extremo e por consequência me tornei também “workaholic”. Era comum trabalhar das 8h até às 21h ou 22h. Foi assim que recebi minha primeira promoção e, aos 21 anos, conquistei meu primeiro cargo de gestão por ser uma excelente técnica. 

Em 1995, pouco se falava de liderança, na verdade, eu nem conhecia o termo líder. Simplesmente eu era a “chefe”. Tratava minha equipe como colegas e eles me respeitavam por eu ter um cargo hierarquicamente superior. Entretanto, eu tinha dificuldades em falar com as pessoas, principalmente quando algo saia errado e por achar que ninguém faria tão bem uma tarefa quanto eu, era extremamente centralizadora.

O poder transformador do feedback

Eu não lembro exatamente quando conheci o conceito de liderança, mas lembro precisamente quando fui apresentada à prática. Em 2005, assumi a área financeira em uma renomada empresa que possuía o modelo de consultoria interna de recursos humanos (atualmente business partner). Lá, pela primeira vez me deparei com a necessidade de gerir uma equipe. Na primeira avaliação de desempenho recebi dois feedbacks em um: “Tu és uma ótima técnica, mas péssima em gerenciar pessoas”. 

Questionei minha líder (outra referência de mulher líder) os motivos desta avaliação, solicitando evidências das afirmativas. Escutei com atenção suas justificativas e refleti a respeito. Novamente, me vesti de resiliência e fui fazer uma das coisas que eu amo e faço de melhor: estudar

Recebi o feedback em um sábado de carnaval e na quinta-feira seguinte já estava matriculada no MBA Gestão de Pessoas. Seguramente, esse foi um dos cursos que mais agregou em minha carreira. Depois deste, fiz outros cursos e formações sobre pessoas e liderança. Foi nesta empresa que nasceu a líder Dirlene. Entrei lá chefe e saí líder

Foi a partir de um feedback negativo que tive minha vida transformada. Estudar continuamente pessoas e liderança me tornou, além de uma profissional diferenciada, um ser humano melhor e foi determinante para eu ser quem eu sou hoje. 

De competitiva me tornei colaborativa. Ao invés de dizer “eu”, passei a falar “nós”. Deixei de fiscalizar e passei a orientar. Compreendi que para delegar é preciso confiar e passei a confiar mais nas pessoas e, sobretudo entendi que as pessoas representam a chave do sucesso dos negócios, pois os resultados são atingidos por meio das pessoas. Como diz sabiamente Michael Jordan: “O talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos”!  

O que é ser uma líder de sucesso?

Hoje sou bastante questionada sobre como eu atingi o sucesso. Entendo o sucesso como algo subjetivo. O que é sucesso para um, não é para outro. Não acredito em fórmulas prontas ou em verdades absolutas, por isso, não creio em uma receita para o sucesso. 

Em uma das formações que fiz, Coach em Gestão das Emoções escrevi meu propósito pessoal de vida como “evoluir sempre, proporcionando evolução ao próximo também.” Assim, quando sou questionada sobre sucesso, penso que compartilhar minhas experiências, meus caminhos, o que deu certo ou não, bem como os aprendizados, é uma forma de contribuir para a evolução das pessoas e, principalmente, das mulheres.

5 habilidades importantes para a liderança

Pensando desta forma, resumo 5 competências que considero fundamentais para meu êxito profissional e, especialmente em minha jornada como líder:

  1. Inteligência emocional 
  2. Comunicação assertiva
  3. Visão sistêmica
  4. Pensamento crítico
  5. Aprendizado contínuo

1. Inteligência emocional

Cito inteligência emocional porque esta competência resume a principal habilidade de um líder: a capacidade de gerenciar pessoas. Entretanto, o pilar da inteligência emocional é o autoconhecimento que eu considero a mãe do conhecimento. 

Olhar para dentro de si e enxergar seus pontos fortes, identificando onde estão as oportunidades é primordial para liderarmos a nós e termos relacionamentos saudáveis e empáticos. Assim, podemos trabalhar em equipe, fazer conexões, motivar e construir coletivamente. Ter IE também implica ser resiliente e antifrágil, ou seja, ter a capacidade de enfrentar, superar as adversidades e ainda aprender com elas.

2. Comunicação assertiva

A comunicação é uma habilidade necessária a todas áreas. Porém, na liderança, a comunicação assertiva é uma arma poderosa e um diferencial dos grandes líderes. O óbvio precisa ser dito, principalmente quando falamos de equipe. 

Então, estabelecer e comunicar as prioridades, garantir que as reuniões sejam produtivas, escutando as pessoas, assumindo vulnerabilidade, facilita a criação de um ambiente de confiança e colaboração. Além de tudo, uma comunicação assertiva leva a relacionamentos mais saudáveis e a feedbacks mais eficientes.

3. Visão sistêmica

Ter visão sistêmica, enxergando e compreendendo o cenário tanto de sua área quanto do negócio faz com que o líder amplie seu potencial criativo e sua capacidade de análise e resolução de problemas, buscando por soluções ainda não tentadas. 

4. Pensamento crítico

Uma pessoa com pensamento crítico não significa ser um apontador de falhas que sai criticando a tudo e a todos. Ao contrário, é uma capacidade que leva o líder a avaliar prós e contras, usando raciocínio lógico para questionar as diversas situações, levando em consideração diferentes saídas para um obstáculo.

5. Aprendizado contínuo

O aprendizado contínuo que é chamado também de lifelong learning nos permite expandir e ampliar o modo de pensar e agir, não fixando apenas no conhecimento adquirido até agora, mas essencialmente buscando novos conceitos e possibilidades. Acima de tudo, significa entender que “as competências que nos trouxeram até aqui podem não ser suficientes para nos levar adiante”.

#TamoJuntas

Relatei aqui um pouco de minha jornada de liderança, bem como alguns desafios de uma mulher, negra e mãe. Como já mencionei, não acredito em verdades absolutas. No entanto, acredito que o líder seja um formador de opiniões. Considerando isso, passei a contar minha história para demonstrar que gênero, cor da pele ou classe social não devem determinar o destino de ninguém. Independentemente de onde viemos, podemos sonhar e conquistar o que queremos

Conquistei meu espaço, mas meu propósito de evoluir sempre, proporcionando evolução ao próximo, permanece. Agora, me coloco como agente de transformação para o mundo mais diverso e inclusivo que almejo para minha filha e futuras gerações. Por isso, afirmo que além de gerenciar pessoas, entender a necessidade e a importância da diversidade, da inclusão e da sororidade fazem parte do caminho das mulheres na liderança, pois tenho convicção que “o caminho para o crescimento feminino é traçado em conjunto”.

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Sobre Dirlene Silva

Adepta da filosofia UBUNTU - eu sou porque nós somos. Mãe da Joana, filha da Vera e irmã da Marcia e da Marta. Praticante do lifelong learning é Economista, mestre em Gestão e Negócios, MBA Finanças, MBA Gestão de Pessoas, Pós-MBA Inteligência Emocional e Coach em Gestão das Emoções. É empreendedora, CEO na DS Estratégias & Inteligência Financeira, palestrante, professora e embaixadora na Escola Conquer, embaixadora no Clube Mulheres de Negócios de Portugal, colunista no Banco Pan e no blog Prateleira de Mulher, conselheira nos projetos Injeção de Autoestima e Artigo 19. É Linkedin Top Voices e Creator. Em 2021, foi eleita uma das 50 pessoas mais criativas do Brasil pela Revista Wired.  Saiba mais sobre a Dirlene aqui.

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